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C1Renascimento · Poeta (Renascimento cretense)

Vitsentzos Kornaros

Βιτσέντζος Κορνάρος

1553 – 1613 or 1614 · Trapezonda, perto de Sitia, Creta; Cândia (Heraklion)

Vitsentzos Kornaros (Βιτσέντζος Κορνάρος) viveu em Creta sob domínio veneziano, entre Sitia e Cândia, de 1553 até cerca de 1614, e escreveu um único livro: Ερωτόκριτος (Erotokritos), uns 10 000 versos rimados sobre a filha de um rei, Aretousa, e o jovem que canta sob a sua janela, vence uma justa, é exilado e regressa disfarçado para salvar o reino do pai dela. Quatro séculos depois, os cretenses ainda o cantam de cor.

A vida

Quase tudo o que sabemos com certeza vem dos últimos versos do poema, onde o poeta se nomeia: Vitsentzos, da família Kornaros, nascido em Sitia, casado em Kastro, a capital veneziana de Creta que é hoje Heraklion. Os estudiosos aceitam hoje de modo geral que se tratava de Vincenzo Cornaro, nascido em 1553 em Trapezonda, uma propriedade perto de Sitia, numa família de origem veneziana que vivia na ilha havia gerações e tinha o grego como língua materna.

Por volta de 1590 mudou-se para Cândia, onde casou com Marietta Zeno, exerceu cargos públicos durante os anos de peste da década de 1590 e pertenceu à Accademia degli Stravaganti, uma sociedade literária fundada pelo seu irmão Andrea. Era o mundo do Renascimento cretense: Creta era veneziana desde 1211, e a sua classe instruída lia Ariosto e Tasso enquanto ouvia canções populares gregas nas ruas. Morreu em Cândia em 1613 ou 1614, meio século antes de os otomanos tomarem a cidade após um cerco de vinte e um anos.

Alguns estudiosos duvidaram desta identificação, pois o nome era comum entre a nobreza da ilha, e continua em aberto a questão de saber se escreveu também o drama religioso Η Θυσία του Αβραάμ (O Sacrifício de Abraão). O que não oferece dúvidas é que um único poeta produziu, na primeira década do século XVII, o melhor poema longo em grego entre Homero e os tempos modernos.

A obra

Ερωτόκριτος (Erotokritos) é um romance em cinco partes e cerca de 10 000 versos rimados de quinze sílabas, o metro da canção popular grega, escrito no dialeto cretense. Erotokritos, filho do conselheiro do rei, ama Aretousa, filha de Héracles, rei de Atenas. Faz-lhe serenatas em segredo à noite; o rei organiza uma justa em que ele derrota os cavaleiros do mundo grego; quando ousa pedir a mão dela, o rei exila-o. Aretousa recusa todos os outros pretendentes e é lançada numa masmorra. Então os valáquios invadem, e um estrangeiro de pele escura, Erotokritos disfarçado por uma poção mágica, salva Atenas em combate singular. Põe à prova a fidelidade de Aretousa, revela-se, e o poema termina com o casamento de ambos.

O enredo vem de um romance medieval francês, Paris et Vienne, provavelmente através de uma versão italiana, mas Kornaros reconstruiu-o por completo: o cenário é uma Atenas antiga imaginária, as personagens pensam e falam como aldeões cretenses, e o centro moral é a constância dos amantes perante a roda da fortuna. Longas passagens são monólogos de amor e de dor que valem por si como canções.

A língua é rica e musical, cheia de provérbios e de imagens da natureza, e é a razão pela qual o poema sobreviveu: foi impresso em Veneza em 1713, mas os cretenses havia muito que o sabiam de cor.

O legado na Grécia de hoje

O Erotokritos canta-se em Creta até hoje, na melodia lenta e sinuosa da lira cretense, e os seus dísticos usam-se como μαντινάδες em casamentos e festas. Ouça a gravação de 1976 dos versos iniciais por Nikos Xylouris, ou a versão mais áspera de Psarantonis, e perceberá porquê. Excertos, geralmente a despedida de Aretousa ou a justa, figuram na antologia de literatura do liceu grego, e Seferis dedicou um ensaio ao poema. Em Sitia, um festival de verão, as Κορνάρεια, tem o seu nome, e em Heraklion a praça chamada Πλατεία Κορνάρου tem uma escultura moderna de Erotokritos e Aretousa. O verso inicial, Του Κύκλου τα γυρίσματα, é tão familiar aos gregos como o primeiro verso de um hino nacional.

Sabia que…?

  • O poema foi escrito por volta de 1600–1610, mas só foi impresso pela primeira vez em Veneza em 1713; durante um século circulou em manuscrito e de boca em boca.
  • Kornaros nomeia-se no epílogo do poema; é praticamente o único documento biográfico que temos sobre ele.
  • A história passa-se na Atenas antiga, mas os heróis disputam uma justa, o desporto medieval dos cavaleiros, e os inimigos do rei são os valáquios.
  • A família de Kornaros falava grego, embora fosse de origem nobre veneziana; os Cornaro eram uma das famílias mais antigas de Veneza.

Obras principais

Título gregoTítuloAno
Ερωτόκριτος, Μέρος Α΄: ο έρωτας και τα τραγούδιαErotokritos, Parte 1: o amor e as canções noturnasc. 1600–1610
Ερωτόκριτος, Μέρος Β΄: η γκιόστραErotokritos, Parte 2: a justac. 1600–1610
Ερωτόκριτος, Μέρος Γ΄: η εξορίαErotokritos, Parte 3: o exílioc. 1600–1610
Ερωτόκριτος, Μέρος Δ΄–Ε΄: ο πόλεμος και ο γάμοςErotokritos, Partes 4–5: a guerra e o casamentoc. 1600–1610
Ερωτόκριτος (πρώτη έκδοση, Βενετία)Erotokritos (primeira edição impressa, Veneza)1713

Uma frase para reter

Του Κύκλου τα γυρίσματα, που ανεβοκατεβαίνουν, / και του Τροχού, που ώρες ψηλά κι ώρες στα βάθη πηαίνουν.

Em grego de hojeΤα γυρίσματα του κύκλου του χρόνου, που ανεβοκατεβαίνουν, και του τροχού της τύχης, που άλλοτε πηγαίνουν ψηλά και άλλοτε στα βάθη.

Tou Kyklou ta gyrismata, pou anevokatevainoun, / kai tou Trochou, pou ores psila ki ores sta vathi piainoun.

As voltas do círculo do tempo, que sobem e descem, / e da roda da fortuna, que ora vai ao alto, ora às profundezas.

Ερωτόκριτος, Α΄ 1–2 (c. 1600–1610)
C1

Ler sobre Vitsentzos Kornaros em grego (C1)

Palavras do texto

  • origem, ascendência
  • dialeto
  • verso
  • noivo
  • em segredo
  • exilar
  • disfarçado
  • de cor

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