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Ioannis Makriyannis
Unknown author · Public domain · Wikimedia Commons

C1Grécia moderna · General de 1821, memorialista

Ioannis Makriyannis

Ιωάννης Μακρυγιάννης

1797 – 1864 · Avoriti (Dórida); Atenas

Ioannis Makriyannis (Ιωάννης Μακρυγιάννης, 1797–1864) combateu durante toda a Guerra da Independência grega, de 1821 ao cerco da Acrópole, liderou a revolta de 3 de setembro de 1843 que impôs uma constituição ao rei Otão e, tendo aprendido sozinho a escrever aos 32 anos, deixou as Απομνημονεύματα (Memórias), um relato feroz e franco da revolução e das suas traições, hoje lido como uma das maiores obras da prosa neogrega.

A vida

Nasceu em 1797 como Ioannis Triantafyllou em Avoriti, uma aldeola nas montanhas da Dórida, na Grécia central, numa família pobre; o pai foi morto num confronto com irregulares albaneses quando ele era bebé, e a família fugiu para Livadia. Alto para a idade, recebeu a alcunha de Makriyannis, «o João comprido», e o nome ficou. Trabalhou como criado e depois como pequeno comerciante em Arta, aderiu à sociedade secreta Filikí Etería em 1820 e pegou em armas em 1821. Combateu na Rumélia e no Peloponeso e, em junho de 1825, defendeu os moinhos de Lerna, perto de Náuplia, contra o exército egípcio de Ibrahim Paxá. Foi gravemente ferido ao defender a Acrópole de Atenas em 1826–27 e carregou a dor para o resto da vida.

No novo Estado foi nomeado general, instalou-se em Atenas por baixo da Acrópole, no bairro que hoje tem o seu nome, e tornou-se um opositor declarado primeiro de Capodistrias e depois da regência bávara e do poder absoluto do rei Otão. Na noite de 3 de setembro de 1843 liderou as tropas e a multidão reunidas diante do palácio e obteve a promessa de uma constituição; a praça foi rebatizada Syntagma, «Constituição», em memória dessa noite.

A sua independência valeu-lhe inimigos. Em 1852 foi preso, acusado de conspirar contra o rei, e em 1853 condenado à morte; a pena foi comutada e foi libertado em 1854, com a saúde arruinada. Morreu em Atenas a 27 de abril de 1864.

A obra

Makriyannis não sabia escrever quando a guerra acabou. Em 1829, em Argos, aprendeu sozinho as letras para poder registar o que tinha visto, e entre 1829 e 1850 encheu os seus cadernos com as Απομνημονεύματα (Memórias). Escrevia como falava, no demótico de um aldeão da Rumélia, sem pontuação e com as palavras coladas umas às outras, e escondeu o manuscrito; este só foi decifrado e publicado em 1907 por Giannis Vlachogiannis. O livro conta a guerra por dentro, batalha a batalha, e depois as desilusões da paz: potências estrangeiras, oficiais bávaros, políticos e chefes militares que punham o seu interesse acima da causa comum. O seu centro moral é a frase que os gregos ainda citam, a de que estamos «no “nós” e não no “eu”», e a sua página mais famosa é a ordem dada a soldados que estavam prestes a vender duas estátuas antigas a europeus: «foi por estas que lutámos».

Um segundo manuscrito, Οράματα και θάματα (Visões e Prodígios, 1851–52), diário das suas visões religiosas escrito na prisão e na doença, só foi publicado em 1983. Makriyannis foi também, à sua maneira, um mecenas: entre 1836 e 1839 mandou o pintor popular Panagiotis Zografos e os filhos pintar, sob a sua orientação, uma série de quadros das batalhas da guerra, como registo para o rei e para os embaixadores das grandes potências; conservam-se exemplares na Biblioteca Gennadius em Atenas e na Royal Collection em Windsor, e são o gémeo visual das Memórias.

O legado na Grécia de hoje

Makriyannis tornou-se um clássico em 1943, quando Giorgos Seferis, numa conferência para soldados gregos em Alexandria intitulada Ένας Έλληνας – ο Μακρυγιάννης (Um Grego: Makriyannis), apresentou o general iletrado como o mestre de todos os prosadores gregos, e Elytis, Theotokas e toda a geração dos anos 30 o tomaram como modelo de um demótico vivo. Excertos das Memórias, sobretudo a passagem das estátuas e «είμαστε εις το “εμείς”», são lidos em todos os liceus, e a frase é citada sempre que os gregos discutem o egoísmo e o bem comum. Em Atenas, o bairro de Makriyanni junto ao Museu da Acrópole e a longa rua 3ης Σεπτεμβρίου têm o nome do homem e da sua noite; a própria Praça Syntagma comemora a sua constituição. Os quadros de Zografos podem ser vistos na Biblioteca Gennadius em Atenas.

Sabia que…?

  • Aprendeu a escrever aos 32 anos, em Argos em 1829, apenas para registar as suas memórias da guerra.
  • O manuscrito das Memórias, escrito sem pontuação nem espaços entre as palavras, ficou por ler até Giannis Vlachogiannis o decifrar e publicar em 1907, 43 anos após a morte do autor.
  • A Praça Syntagma em Atenas e a rua 3ης Σεπτεμβρίου devem o nome à constituição que ele conquistou na noite de 3 de setembro de 1843.
  • Foi condenado à morte em 1853 pelo Estado que ajudara a criar; a pena foi comutada e foi libertado no ano seguinte.

Obras principais

Título gregoTítuloAno
Η μάχη στους Μύλους της ΛέρναςDefesa dos moinhos de Lerna contra Ibrahim Paxá1825
Η πολιορκία της ΑκρόποληςDefesa da Acrópole de Atenas1826–1827
ΑπομνημονεύματαMemórias (escritas em 1829–1850, publicadas em 1907)1829–1850
Οι πίνακες του Παναγιώτη ΖωγράφουOs quadros de batalhas encomendados a Panagiotis Zografos1836–1839
Η επανάσταση της 3ης ΣεπτεμβρίουA revolta de 3 de setembro de 1843 por uma constituição1843
Οράματα και θάματαVisões e Prodígios (publicado em 1983)1851–1852

Uma frase para reter

Αυτά, και δέκα χιλιάδες τάλαρα να σας δώσουνε, να μην το καταδεχτείτε να βγουν από την πατρίδα μας. Γι' αυτά πολεμήσαμε.

Afta, kai deka chiliades talara na sas dosoune, na min to katadechteite na vgoun apo tin patrida mas. Gi' afta polemisame.

Mesmo que vos deem dez mil táleres por estas, não consintais que saiam da nossa pátria. Foi por estas que lutámos.

Απομνημονεύματα (written 1829–1850, published 1907), on two ancient statues that soldiers were about to sell

No texto original

O texto tal como Ioannis Makriyannis o escreveu, em domínio público, com a nossa própria tradução ao lado.

«Απομνημονεύματα»Memórias

Uma nota à margem das Memórias, na ortografia de autodidacta de Makriyannis: depois do saque de Poros em 1831 compra a uns soldados duas estátuas antigas que iam vender para o estrangeiro e mais tarde oferece-as ao rei Otão. A citação da página é o que disse aos soldados.

Είχα δυο αγάλματα περίφημα, μια γυναίκα κι’ ένα βασιλόπουλο ατόφια – φαίνονταν οι φλέβες· τόση εντέλειαν είχαν. Όταν χάλασαν τον Πόρον, τα ’χαν πάρη κάτι στρατιώτες και εις τ’ Άργος θα τα πουλουύσαν κάτι Ευρωπαίων· χίλια τάλλαρα γύρευαν. Άντεσε κ’ εγώ εκεί, πέρναγα· πήρα τους στρατιώτες, τους μίλησα· «Αυτά και δέκα χιλιάδες τάλλαρα να σας δώσουνε, να μην το καταδεχτήτε να βγουν από την πατρίδα μας. Δι’ αυτά πολεμήσαμεν». (Βγάζω και τους δίνω τρακόσια πενήντα τάλλαρα.)· κι’ όταν φιλιωθούμεν με τον Κυβερνήτη, (ότι τρωγόμαστε), τα δίνω και σας δίνει ό,τι του ζητήσετε διά να μείνουν εις την πατρίδα απάνου». Και τα ’χα κρυμμένα. Τότε με την αναφορά μου τα πρόσφερα του Βασιλέως να χρησιμέψουν διά την πατρίδα.Eu tinha duas estátuas famosas, uma mulher e um jovem príncipe, inteiras, intactas; viam-se as veias, tamanha era a sua perfeição. Quando saquearam Poros, uns soldados tinham-nas levado e iam vendê-las em Argos a uns europeus; pediam mil táleres. Calhou de eu estar lá, de passagem; chamei os soldados à parte e falei-lhes: «Mesmo que vos dêem dez mil táleres por elas, não vos rebaixeis a deixá-las sair da nossa pátria. Foi por elas que lutámos.» (Tiro trezentos e cinquenta táleres e dou-lhos.) «E quando fizermos as pazes com o Governador (porque andamos de candeias às avessas), entrego-lhas e ele dar-vos-á o que lhe pedirdes, para que fiquem cá, na nossa pátria.» E guardei-as escondidas. Depois, com o meu requerimento, ofereci-as ao Rei, para que servissem a pátria.

Απομνημονεύματα, Book Γ΄, chapter 1, the author's own note (written 1829–1850, published 1907) · Texto em domínio público, fonte: el.wikisource.org

C1

Ler sobre Ioannis Makriyannis em grego (C1)

Palavras do texto

  • órfão
  • alcunha
  • cerco
  • curvo-me, inclino
  • condeno
  • feito, proeza
  • traio
  • monumento

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