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Epicuro
Unknown artist · Public domain · Wikimedia Commons

C1Antiguidade · Filósofo

Epicuro

Επίκουρος

341 BC – 270 BC · Samos; Atenas (o Jardim, Κήπος)

Epicuro (Επίκουρος, 341–270 a.C.) ensinou que o fim da vida é o prazer, e desde então tem sido mal compreendido. Por prazer entendia o estado sereno de um corpo sem dor e de uma mente sem medo, alcançado através de necessidades modestas, do estudo da natureza e da amizade. No Jardim (Κήπος) que fundou em Atenas por volta de 306 a.C., mulheres e escravos estudavam ao lado dos cidadãos. A sua frase de que a morte nada é para nós continua a ser uma das linhas mais consoladoras da filosofia.

A vida

Epicuro nasceu em 341 a.C. em Samos, onde o pai, Néocles, cidadão ateniense, se instalara como colono e era mestre-escola. Aos dezoito anos foi para Atenas cumprir os seus dois anos de serviço militar; quando regressou, os colonos atenienses tinham sido expulsos de Samos e a família mudara-se para Cólofon, na costa da Ásia. Aí e em Teos estudou com Nausífanes, seguidor de Demócrito, de quem retirou a teoria dos átomos. No início dos trinta anos começou a ensinar, primeiro em Mitilene, em Lesbos, e depois em Lâmpsaco, no Helesponto, onde reuniu os amigos que o seguiriam para o resto da vida.

Por volta de 306 a.C. regressou a Atenas e comprou uma casa e um jardim fora das muralhas. O Jardim deu à escola o nome e o carácter: não uma sala de conferências pública, mas uma comunidade que vivia em conjunto, comia com simplicidade, escrevia e conversava. Os seus membros escandalizavam Atenas, porque incluíam mulheres, entre elas a hetera Leôncio, e escravos, como Mys, o escravo do próprio Epicuro. Epicuro raramente saía do Jardim e não participava na política, de acordo com o seu conselho de viver escondido.

Sofreu durante anos de uma doença dolorosa da bexiga e dos rins, e morreu em 270 a.C., aos setenta e dois anos. Numa carta escrita no seu último dia, disse que a dor era tão grande quanto podia ser, mas que a alegria de recordar as conversas com os amigos a superava. O testamento libertou os seus escravos, providenciou para os filhos dos seus seguidores e deixou o Jardim à escola, que sobreviveu em Atenas durante séculos.

A obra

Epicuro escreveu mais do que qualquer filósofo antes dele, cerca de trezentos rolos segundo Diógenes Laércio, entre eles um tratado Περὶ φύσεως (Sobre a Natureza) em trinta e sete livros, de que se recuperaram fragmentos carbonizados numa vila de Herculano soterrada pelo Vesúvio. O que sobrevive inteiro é pouco: três cartas que resumem o seu sistema, preservadas por Diógenes Laércio – a Ἐπιστολὴ πρὸς Ἡρόδοτον (Carta a Heródoto) sobre a física, a Ἐπιστολὴ πρὸς Πυθοκλέα (Carta a Pítocles) sobre os fenómenos celestes e a Ἐπιστολὴ πρὸς Μενοικέα (Carta a Meneceu) sobre como viver; as quarenta Κύριαι Δόξαι (Máximas Capitais); e uma coleção de sentenças encontrada num manuscrito do Vaticano em 1888. O poeta romano Lucrécio pôs todo o sistema em verso latino no De rerum natura.

O sistema tem três partes que se sustentam umas às outras. Na física, tudo são átomos que se movem no vazio, e também a alma é feita de átomos que se dispersam com a morte; não há além, nem castigo, nada a temer. Os deuses existem, bem-aventurados e distantes, e não se interessam por nós. Na ética, o prazer é o princípio e o fim da vida feliz, mas Epicuro entende por ele sobretudo a ἀπονία, a ausência de dor física, e a ἀταραξία, a ausência de perturbação do espírito. Os desejos que contam são os naturais e necessários – comida, abrigo, companhia; o luxo nada acrescenta, e desejá-lo acrescenta ansiedade. A amizade, diz nas Máximas Capitais, é o maior dos bens que a sabedoria proporciona para uma vida inteira. A famosa segunda Máxima, de que a morte nada é para nós porque o que se dissolveu não tem sensação, não pretende ser um encolher de ombros, mas um remédio: retire-se o medo da morte e a maior parte dos outros medos desmorona-se com ele.

O legado na Grécia de hoje

O nome de Epicuro sobrevive no grego moderno sobretudo como um equívoco: επικούρειος designa quem gosta de boa comida e de conforto, o contrário do homem que pedia a um amigo que lhe mandasse um potinho de queijo para poder banquetear-se quando quisesse. As suas verdadeiras doutrinas são ensinadas na disciplina de filosofia do terceiro ano do liceu, e a Carta a Meneceu, com o conselho inicial de que ninguém é demasiado novo nem demasiado velho para filosofar, é muito lida em tradução para grego moderno. As expressões «λάθε βιώσας» (vive escondido) e «ο θάνατος ουδέν προς ημάς» são citadas no grego do dia a dia, e uma associação moderna, os Amigos da Filosofia Epicurista, organiza todos os anos um simpósio em Atenas. Samos recorda-o como filho da terra. O aprendente pode ler a Carta a Meneceu numa edição bilingue: é breve, serena e surpreendentemente moderna.

Sabia que…?

  • O Jardim admitia mulheres e escravos como membros de pleno direito, o que nenhuma outra escola ateniense fazia, e os seus inimigos espalharam histórias sobre ele durante séculos.
  • Dos seus cerca de trezentos livros, só três cartas e duas coleções de sentenças sobrevivem completas; partes do seu grande tratado Sobre a Natureza foram recuperadas de papiros carbonizados pela erupção do Vesúvio em 79 d.C.
  • No século II d.C., um rico epicurista chamado Diógenes mandou gravar a doutrina num muro da sua cidade natal, Enoanda, na Ásia Menor – a maior inscrição antiga conhecida.
  • Pediu que o seu aniversário fosse celebrado todos os anos, e os seus seguidores continuaram a fazê-lo durante centenas de anos após a sua morte.

Obras principais

Título gregoTítuloAno
Η ίδρυση του Κήπου στην ΑθήναA fundação do Jardim em Atenasc. 306 BC
Περὶ φύσεωςSobre a Natureza (37 livros, fragmentos)c. 300 BC
Ἐπιστολὴ πρὸς ἩρόδοτονCarta a Heródoto (física)
Ἐπιστολὴ πρὸς ΜενοικέαCarta a Meneceu (ética)
Κύριαι ΔόξαιMáximas Capitais (40 máximas)
Ἐπικούρου προσφώνησιςSentenças Vaticanas

Uma frase para reter

Ὁ θάνατος οὐδὲν πρὸς ἡμᾶς· τὸ γὰρ διαλυθὲν ἀναισθητεῖ, τὸ δ’ ἀναισθητοῦν οὐδὲν πρὸς ἡμᾶς.

Em grego de hojeΟ θάνατος δεν είναι τίποτα για μας· γιατί ό,τι έχει διαλυθεί δεν αισθάνεται, και ό,τι δεν αισθάνεται δεν είναι τίποτα για μας.

O thanatos ouden pros imas: to gar dialythen anaisthitei, to d’ anaisthitoun ouden pros imas.

A morte nada é para nós; pois o que se dissolveu não tem sensação, e o que não tem sensação nada é para nós.

Κύριαι Δόξαι (Principal Doctrines) 2

No texto original

O texto tal como Epicuro o escreveu, em domínio público, com a nossa própria tradução ao lado.

«Ἐπιστολὴ πρὸς Μενοικέα»Carta a Meneceu

Da Carta a Meneceu, o resumo que o próprio Epicuro fez da sua ética, conservado por Diógenes Laércio: o argumento de que a morte não nos pode fazer mal, que as Máximas Capitais condensam na citação da página.

Συνέθιζε δὲ ἐν τῷ νομίζειν μηδὲν πρὸς ἡμᾶς εἶναι τὸν θάνατον ἐπεὶ πᾶν ἀγαθὸν καὶ κακὸν ἐν αἰσθήσει· στέρησις δέ ἐστιν αἰσθήσεως ὁ θάνατος. ὅθεν γνῶσις ὀρθὴ τοῦ μηθὲν εἶναι πρὸς ἡμᾶς τὸν θάνατον ἀπολαυστὸν ποιεῖ τὸ τῆς ζωῆς θνητόν, οὐκ ἄπειρον προστιθεῖσα χρόνον, ἀλλὰ τὸν τῆς ἀθανασίας ἀφελομένη πόθον.Habitua-te a pensar que a morte nada é para nós, pois todo o bem e todo o mal residem na sensação, e a morte é privação da sensação. Por isso o conhecimento correcto de que a morte nada é para nós torna agradável a mortalidade da vida, não por lhe acrescentar um tempo infinito, mas por lhe retirar o anseio de imortalidade.
οὐθὲν γάρ ἐστιν ἐν τῷ ζῆν δεινὸν τῷ κατειληφότι γνησίως τὸ μηδὲν ὑπάρχειν ἐν τῷ μὴ ζῆν δεινόν. ὥστε μάταιος ὁ λέγων δεδιέναι τὸν θάνατον οὐχ ὅτι λυπήσει παρών, ἀλλ’ ὅτι λυπεῖ μέλλων. ὃ γὰρ παρὸν οὐκ ἐνοχλεῖ, προσδοκώμενον κενῶς λυπεῖ. τὸ φρικωδέστατον οὖν τῶν κακῶν ὁ θάνατος οὐθὲν πρὸς ἡμᾶς, ἐπειδήπερ ὅταν μὲν ἡμεῖς ὦμεν, ὁ θάνατος οὐ πάρεστιν, ὅταν δὲ ὁ θάνατος παρῇ, τόθ’ ἡμεῖς οὐκ ἐσμέν. οὔτε οὖν πρὸς τοὺς ζῶντάς ἐστιν οὔτε πρὸς τοὺς τετελευτηκότας, ἐπειδήπερ περὶ οὓς μὲν οὐκ ἔστιν, οἳ δ’ οὐκέτι εἰσίν.Pois nada há de terrível na vida para quem compreendeu verdadeiramente que nada há de terrível em não viver. É, pois, insensato quem diz temer a morte não porque ela fará sofrer quando chegar, mas porque faz sofrer enquanto está por vir; pois o que não perturba quando está presente só em vão aflige quando se espera. Assim, o mais pavoroso dos males, a morte, nada é para nós, porque enquanto nós existimos a morte não está presente, e quando a morte está presente nós já não existimos. Não diz respeito, portanto, nem aos vivos nem aos mortos, pois para aqueles não existe, e estes já não existem.

Ἐπιστολὴ πρὸς Μενοικέα 124–125 (preserved in Diogenes Laertius 10.124–125) · Texto em domínio público, fonte: el.wikisource.org

C1

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Palavras do texto

  • jardim
  • comunidade
  • inaudito
  • prazer
  • ausência
  • perturbação, agitação
  • infundado
  • carta, epístola

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