A vida
Gatsos nasceu a 8 de dezembro de 1911 em Asea, uma aldeia da Arcádia, no centro do Peloponeso, e as aldeias de montanha dessa região ficaram na sua imaginação durante toda a vida. Foi para Atenas ainda adolescente, estudou filologia na Universidade de Atenas e, nos anos 1930, entrou no círculo de jovens escritores em torno da revista Τα Νέα Γράμματα, onde conheceu Odysseas Elytis, que continuou a ser o seu amigo mais próximo.
Em 1943, em plena ocupação alemã, publicou Αμοργός, um poema de cerca de vinte páginas que deixou os amigos estupefactos e que, segundo se conta, escreveu numa única noite. Nunca publicou outra coletânea. Em vez disso, a partir do final dos anos 1940, escreveu para o teatro e sobretudo para a música, começando pelas canções que ele e Manos Hadjidakis fizeram para a encenação de Um Elétrico Chamado Desejo por Karolos Koun em 1949, entre as quais «Χάρτινο το φεγγαράκι».
Durante décadas foi uma figura habitual dos cafés de Atenas, um homem grande e calado que recebia os amigos numa mesa de café no centro da cidade, falava com toda a gente e pouco escrevia. Trabalhou para a rádio grega, traduziu Federico García Lorca e continuou a produzir letras até aos últimos anos. Morreu em Atenas a 12 de maio de 1992 e foi sepultado, como desejara, em Asea.
A obra
Αμοργός tem o nome de uma ilha das Cíclades que Gatsos, segundo se diz, nunca visitou. É um poema surrealista em verso livre, prosa e metros de canção popular, em que imagens do campo grego, do mar, da guerra e da morte se sucedem com a lógica de um sonho; o seu primeiro verso, «Με την πατρίδα τους δεμένη στα πανιά και τα κουπιά στον άνεμο κρεμασμένα» (Com a pátria atada às velas e os remos pendurados no vento), é um dos mais citados da poesia grega moderna. Influenciou toda uma geração de poetas.
As suas letras são a outra metade da sua obra e chegaram a muito mais gente. Com Hadjidakis escreveu «Χάρτινο το φεγγαράκι» (1949), «Μίλησέ μου» (Fala-me), «Τ' αστέρι του βοριά» (A estrela do norte) e o álbum Αθανασία (Imortalidade, 1976), bem como «Ο εφιάλτης της Περσεφόνης» (O pesadelo de Perséfone), uma canção ecológica precoce sobre a paisagem arruinada de Elêusis. Com Theodorakis escreveu «Μυρτιά» (Murta) e outras canções dos anos 1960. Com Stavros Xarchakos escreveu toda a banda sonora do filme Ρεμπέτικο (1983), de Kostas Ferris, incluindo «Καίγομαι, καίγομαι» (Estou a arder) e «Μάνα μου Ελλάς» (Grécia, minha mãe), canções que soam a velhos rebétika mas são inteiramente suas. As suas letras usam as palavras mais simples, o ritmo da canção popular e uma imagem súbita e inesperada; são poesia disfarçada de música popular, e gerações de cantores, de Nana Mouskouri a Maria Farantouri, gravaram-nas.
O legado na Grécia de hoje
Comece por «Χάρτινο το φεγγαράκι», cantada por Nana Mouskouri e por Melina Mercouri: quatro versos curtos de refrão que qualquer principiante consegue acompanhar. Depois ouça a banda sonora de Ρεμπέτικο, de Xarchakos, que toca em todas as tabernas gregas, e a Αθανασία de Hadjidakis. Muitas destas canções cantam-se nas festas escolares, nas festas entre amigos e na rua, e a maioria dos gregos conseguiria cantar uma dúzia de letras de Gatsos sem saber citar um único verso de Amorgos. Nana Mouskouri, cuja carreira começou com Hadjidakis, gravou dezenas das suas canções, pelo que as suas palavras viajaram mais longe do que as de quase qualquer outro poeta grego. Entre os letristas, os gregos tendem a colocá-lo em primeiro lugar: o poeta que provou que uma canção popular podia ser literatura.
Sabia que…?
- Publicou um único livro de poemas em toda a vida, Amorgos (1943), e diz-se que o escreveu numa só noite.
- Deu ao seu poema o nome de uma ilha, Amorgos, onde, segundo se conta, nunca pôs os pés.
- «Χάρτινο το φεγγαράκι» foi escrita para uma produção ateniense de 1949 de Um Elétrico Chamado Desejo, de Tennessee Williams, com música de Manos Hadjidakis, então com 24 anos.
- A sua tradução de Bodas de Sangue, de Lorca (Ματωμένος γάμος), continua a ser a versão grega de referência usada em palco.
Obras principais
| Título grego | Título | Ano |
|---|---|---|
| Αμοργός | Amorgos | 1943 |
| Χάρτινο το φεγγαράκι | Lua de papel (canção, música de Manos Hadjidakis) | 1949 |
| Ματωμένος γάμος (μετάφραση Λόρκα) | Bodas de Sangue (tradução de Lorca) | 1945 |
| Ο εφιάλτης της Περσεφόνης | O pesadelo de Perséfone (canção, Hadjidakis) | 1976 |
| Αθανασία | Imortalidade (ciclo de canções, Hadjidakis) | 1976 |
| Ρεμπέτικο (τραγούδια της ταινίας) | Rembetiko (canções do filme, música de Stavros Xarchakos) | 1983 |
Uma frase para reter
Χάρτινο το φεγγαράκι, / ψεύτικη η ακρογιαλιά
Chartino to fengaraki, / pseftiki i akrogialia
Uma luazinha de papel, / uma praia de mentira