A vida
Anna Kokkinou nasceu em Shubra, um bairro do Cairo, e cresceu na comunidade grega da cidade. Numa entrevista de 2012 recordou que observava, da varanda da família, as lojas de um cruzamento movimentado e disse que era, afinal, «feita de materiais do Cairo». Chegou a Atenas no final dos anos 1960 para estudar, inscreveu-se em filologia grega e cedo a trocou por uma escola de teatro. Os espetáculos do Teatro Technis, o teatro de Karolos Koun, a começar por Fim de Partida, de Beckett, decidiram o seu caminho.
Estreou-se no teatro infantil de Xenia Kalogeropoulou. Depois, Lefteris Vogiatzis convidou-a para o grupo que se tornaria Η Σκηνή (A Cena), na rua Kykladon, uma companhia a que mais tarde atribuiu a sua maneira de olhar as coisas. Quando terminou, teve dificuldade em adaptar-se a outras companhias. No inverno de 1990 encontrou em Makrygianni um armazém desmoronado e sem telhado, propriedade da Fundação Koutlidis, pediu para o arrendar e, segundo o seu próprio relato, vendeu a sua única casa para o transformar em teatro. O nome Σφενδόνη (Funda) foi sugerido por Vasilis Dioskouridis. O teatro foi ao mesmo tempo a sua base e uma longa luta: em 2019 publicou uma carta aberta pedindo ao Governo que ajudasse a salvá-lo do despejo num litígio sobre a renda.
A obra

Kokkinou trabalha muitas vezes com textos que não foram escritos para o palco. O teatro abriu com o seu espetáculo a solo baseado nos contos de Georgios Vizyinos, documentado com o título Μορφές από το έργο του Βιζυηνού (Figuras da obra de Vizyinos). Não se sentia pronta para representar sozinha, contou mais tarde, mas o teatro tinha de abrir; previa cerca de vinte dias de récitas, e o espetáculo manteve-se dois anos e meio. Em 2014 encenou e interpretou Εγώ ο Θουκυδίδης ένας Αθηναίος (Eu, Tucídides, um ateniense), construído com passagens de Tucídides na tradução para grego moderno de N. M. Skouteropoulos, entre elas o diálogo dos mélios, a guerra civil de Corcira e a oração fúnebre de Péricles. Foi a narradora, concebeu o cenário e os figurinos e levou o espetáculo em digressão a escolas secundárias de toda a Grécia.
Entre os trabalhos posteriores no Sfendoni contam-se REM/κήπος (REM/Jardim, 2018), inspirado numa viagem à terra natal de Vizyinos na Trácia Oriental e num jardim da sua infância no Cairo, e Οι Μίμοι (Os Mimos), de Herodas, na tradução de Theodoros Stefanopoulos, estreados em 2019, em que também representou. O que a atraiu em Herodas, disse, foi a língua. Em abril de 2020 gravou no seu camarim o conto de Vizyinos Ο Μοσκώβ Σελήμ (Moskov Selim) para a série online Αναγνώσεις (Leituras) do Centro Cultural da Fundação Stavros Niarchos. Em janeiro de 2022 apresentou pela primeira vez Αφανισμός (Extinção), a sua versão cénica do último romance de Thomas Bernhard, essencialmente um único e longo monólogo.
O legado na Grécia de hoje
Há mais de três décadas que o Sfendoni mantém viva uma pequena cena independente no centro de Atenas, e o trabalho de Kokkinou ali mostra como a prosa grega, desde contos do século XIX até à história antiga em tradução, se pode tornar teatro falado. A sua gravação de 2020 de Ο Μοσκώβ Σελήμ (Moskov Selim) foi apresentada como uma leitura para jovens e estudantes na série Αναγνώσεις do SNFCC. Experimente uma tarefa curta: ouça o primeiro minuto e marque com uma barra cada ponto em que ela faz uma pausa ou respira. Vizyinos escreve num grego literário do século XIX, por isso encare isto como prática de escuta do ritmo e não de compreensão total. Depois escreva uma frase sua sobre um lugar da sua infância, sublinhe as sílabas tónicas, marque as pausas e leia-a em voz alta duas vezes, mudando uma pausa de lugar na segunda vez.
Sabia que…?
- Vendeu a sua única casa para criar o Teatro Sfendoni em Makrygianni.
- O seu espetáculo a solo sobre Vizyinos devia durar vinte dias e manteve-se dois anos e meio.
- O seu espetáculo sobre Tucídides percorreu escolas secundárias de toda a Grécia.
- Decidiu ser atriz depois de ver Fim de Partida, de Beckett, no Teatro Technis.
Obras principais
| Título grego | Título | Ano |
|---|---|---|
| Μορφές από το έργο του Βιζυηνού | Figuras da obra de Vizyinos — espetáculo a solo | early 1990s |
| Εγώ ο Θουκυδίδης ένας Αθηναίος | Eu, Tucídides, um ateniense | 2014 |
| REM/κήπος | REM/Jardim | 2018 |
| Οι Μίμοι του Ηρώνδα | Os Mimos de Herodas — encenação | 2019 |
| Ο Μοσκώβ Σελήμ | Moskov Selim — leitura gravada de Vizyinos | 2020 |
| Αφανισμός | Extinção — a partir de Thomas Bernhard | 2022 |
Uma frase para reter
Η Τέχνη είναι αυτή, που μας φανερώνει και την άλλη πλευρά της ζωής, την αόρατη.
I Téchni íne aftí, pou mas fanerónei ke tin álli plevrá tis zoís, tin aórati.
A Arte é aquilo que nos revela também o outro lado da vida, o invisível.










































