A vida
Ana nasceu a 1 de dezembro de 1083 na Pórfira, a câmara de paredes púrpura do Grande Palácio reservada aos nascimentos dos filhos dos imperadores reinantes, o que fazia dela πορφυρογέννητη, nascida na púrpura, título que nunca deixou os leitores esquecer. O pai, Aleixo I Comneno, tinha tomado o trono dois anos antes e havia de o manter durante trinta e sete anos; a mãe era Irene Ducena. Ainda criança, foi prometida a Constantino Ducas, filho de um antigo imperador, e durante alguns anos o par foi o herdeiro designado; a morte do rapaz e o nascimento do irmão João em 1087 puseram fim a essa perspetiva, e ela nunca o perdoou.
Recebeu a melhor educação que um bizantino podia ter: retórica, filosofia, o quadrívio de aritmética, geometria, astronomia e música, e medicina, que estudou com tal profundidade que descreveu a última doença do pai como um médico. Em 1097 casou com Nicéforo Briénio, general e homem de letras elevado à dignidade de césar, de quem teve quatro filhos. Quando Aleixo agonizava, em agosto de 1118, ela e a mãe tentaram que Briénio fosse nomeado sucessor; João antecipou-se-lhes, e uma conspiração contra o novo imperador no ano seguinte, em que Ana estava profundamente envolvida, desmoronou-se. Briénio, dizem as fontes, recusou-se a agir.
Os seus bens foram confiscados e mais tarde devolvidos, e ela retirou-se para o convento da Theotokos Kecharitomene, fundado pela mãe, onde reuniu eruditos à sua volta e encomendou os primeiros comentários bizantinos a Aristóteles em séculos. Depois da morte de Briénio em 1137, que deixou inacabada a sua história dos anos anteriores a 1081, assumiu ela própria a tarefa. Ainda escrevia no final da década de 1140 e morreu por volta de 1153.
A obra

A Αλεξιάς (Alexíada), cujo título ecoa a Ilíada, abrange os anos de 1069 a 1118 e sobretudo o reinado de Aleixo I, que Ana apresenta como o salvador de um império que em 1081 estava à beira do colapso. Os seus quinze livros acompanham as guerras dele contra os normandos do sul de Itália comandados por Roberto Guiscardo e pelo filho Boemundo, contra os nómadas pechenegues e cumanos do Danúbio e contra os turcos seljúcidas na Ásia Menor, e descrevem em pormenor a chegada da Primeira Cruzada a Constantinopla em 1096–97: os seguidores indisciplinados de Pedro, o Eremita, os juramentos que Aleixo arrancou aos príncipes ocidentais e a hostilidade fascinada de Ana por Boemundo, cujo físico descreve com uma atenção que nenhum outro historiador medieval dedica a um inimigo. Regista também as querelas religiosas do império, incluindo o julgamento e a morte na fogueira do chefe bogomilo Basílio.
Ana escreveu num grego aticista modelado em Tucídides e Políbio, cheio de expressões homéricas e alusões clássicas, e pede desculpa quando tem de usar um nome bárbaro ou uma palavra comum. É abertamente parcial, muitas vezes inexata na cronologia e dada a lamentar as próprias desgraças, mas teve acesso a documentos imperiais, a veteranos das campanhas e à sua própria memória do palácio, e é a única autora bizantina que dá um relato completo dos cruzados vistos de dentro. O último livro, com a sua descrição clínica da morte do imperador por uma doença dos pulmões e do coração, é também a despedida de uma filha. Juntamente com a Ὕλη Ἱστορίας (Materiais para uma história) do marido, que ela se propôs continuar, a Alexíada é a fonte principal sobre a restauração comnena de Bizâncio.
O legado na Grécia de hoje
Ana Comnena é hoje lida como a primeira mulher historiadora em qualquer língua, e a Alexíada consta de todas as bibliografias sobre as cruzadas, ao lado das crónicas latinas que contradiz. Em grego está disponível numa tradução moderna da editora Agra, e o texto grego original está em linha. A Bizâncio dos Comnenos que descreve pode ser vista em Istambul: as muralhas do bairro das Blaquernas, para onde os Comnenos transferiram a corte, e a grande igreja de Cristo Pantocrator (hoje mesquita de Zeyrek), construída pelo irmão que ela tentou destronar. Na Grécia, os alunos conhecem Aleixo Comneno e a Primeira Cruzada na história bizantina do ensino secundário inferior, e «Άννα Κομνηνή» é um nome que reconhecem; há ruas com o seu nome em várias cidades. O exercício C2 do sítio sobre o vocabulário da história bizantina e a página sobre Procópio, o seu grande antecessor, são passos seguintes naturais.
Sabia que…?
- Nasceu na Pórfira, a câmara púrpura do Grande Palácio, e usou o título de πορφυρογέννητη ao longo de toda a sua história para lembrar aos leitores a sua pretensão.
- Estudou medicina com tanta seriedade que participou nas consultas sobre a última doença do pai, e regista os desacordos dos médicos.
- O marido também era historiador; ela continuou a obra inacabada dele, e os dois livros juntos cobrem Bizâncio da década de 1070 até 1118.
- Começou a escrever depois dos sessenta anos, num convento, cerca de trinta anos após os acontecimentos que descreve.
Obras principais
| Título grego | Título | Ano |
|---|---|---|
| Γέννηση στην Πορφύρα | Nascimento na câmara púrpura como presumível herdeira | 1083 |
| Γάμος με τον καίσαρα Νικηφόρο Βρυέννιο | Casamento com o césar Nicéforo Briénio | 1097 |
| Συνωμοσία κατά του Ιωάννη Β΄ | Conspiração falhada contra o irmão João II | 1118–1119 |
| Αποχώρηση στη μονή της Κεχαριτωμένης | Retiro no convento da Kecharitomene | c. 1119 |
| Αλεξιάς | A Alexíada, história de Aleixo I em quinze livros | c. 1148 |
Da obra


Imagens do domínio público, Wikimedia Commons.
Uma frase para reter
Ῥέων ὁ χρόνος ἀκάθεκτα καὶ ἀεί τι κινούμενος παρασύρει καὶ παραφέρει πάντα τὰ ἐν γενέσει…
Em grego de hojeΟ χρόνος, που κυλά ακράτητος και πάντα κάτι κινεί, παρασύρει και παίρνει μαζί του όλα όσα γεννιούνται…
Reon o chronos akathekta kai aei ti kinoumenos parasyrei kai paraferei panta ta en genesei…
O tempo, correndo sem freio e sempre movendo alguma coisa, arrasta e leva consigo tudo o que vem a existir…
No texto original
O texto tal como Ana Comnena o escreveu, em domínio público, com a nossa própria tradução ao lado.
«Ἀλεξιάς»Alexíada
O primeiro parágrafo da Alexíada: uma meditação sobre o tempo e o esquecimento, depois o célebre autorretrato da autora, nascida na púrpura e formada em Aristóteles e Platão, antes de anunciar o seu tema, os feitos do pai, Aleixo I.
Ἀλεξιάς, Prologue 1 (c. 1148), the opening paragraph · Texto em domínio público, fonte: el.wikisource.org














