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Textos estudados

O Diálogo de Melos

Em 416 a.C., uma força ateniense desembarcou em Melos, pequena ilha das Cíclades, e antes de combater enviou embaixadores para negociar. Tucídides escreve a conversa como um diálogo (V, 84–116): os atenienses argumentam com o poder e o interesse, os mélios com a justiça, a esperança e o parentesco com Esparta. O cerco terminou com a morte dos homens e a escravização das mulheres e das crianças. Os gregos ainda usam o vocabulário desse debate.

Uma ilha que recusou aderir

Melos (Μῆλος, hoje Μήλος) era uma das duas ilhas das Cíclades que ficaram fora da aliança ateniense quando começou a Guerra do Peloponeso: Tucídides enumera «todas as Cíclades exceto Melos e Tera» (II, 9, 4). Apresenta os mélios como colonos de Esparta, de início neutrais, até que a devastação das suas terras pelos atenienses os empurrou para a guerra aberta (V, 84, 2). Em 426 a.C., Nícias atacou a ilha com sessenta navios sem conseguir atraí-la (III, 91). Uma avaliação ateniense do tributo de 425/4 a.C. (IG I³ 71) inclui mesmo assim Melos, com 15 talentos.

No verão de 416 a.C., os atenienses regressaram com 38 navios, cerca de 1500 hoplitas aliados e mais de 300 arqueiros. Quanto aos hoplitas atenienses, a edição grega do Perseus dá 1200 e a tradução de Crawley 1600, por isso confirma a tua edição. Antes de causarem qualquer dano, os estrategos Cleomedes e Tísias enviaram embaixadores. Os mélios mantiveram-nos longe do povo, τὸ πλῆθος, e só os deixaram falar perante «os magistrados e os poucos» (V, 84, 3). Os atenienses comentam-no de imediato (V, 85) e propõem responder ponto por ponto em vez de fazer um longo discurso. É por isso que o texto se lê como um diálogo.

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O que significa esta palavra?

Justiça, interesse e esperança

Os atenienses recusam os «belos nomes» (μετ’ ὀνομάτων καλῶν): nada sobre a vitória contra os persas, nada sobre agravos. Vem então a frase célebre (V, 89): δίκαια μὲν ἐν τῷ ἀνθρωπείῳ λόγῳ ἀπὸ τῆς ἴσης ἀνάγκης κρίνεται, δυνατὰ δὲ οἱ προύχοντες πράσσουσι καὶ οἱ ἀσθενεῖς ξυγχωροῦσιν. O inglês de Crawley, «os fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que têm de sofrer», fica na memória mas é livre: ξυγχωροῦσιν significa que cedem ou concedem.

Os mélios aceitam o terreno do interesse, τὸ ξυμφέρον, e defendem que uma norma comum de equidade protege quem está em perigo, também Atenas se um dia cair (V, 90). Pedem para ser amigos e aliados de nenhum dos lados (V, 94). Os atenienses respondem que a amizade de Melos pareceria fraqueza e o seu ódio, poder (V, 95). À esperança, ἐλπίς, chamam consolo no perigo que arruína quem aposta tudo nela (V, 103). Os mélios confiam nos deuses e em Esparta (V, 104). Os atenienses replicam que deuses e homens mandam onde quer que possam, uma lei que não foram eles a criar (V, 105). Por fim oferecem aliança, tributo e segurança (V, 111). Os mélios respondem que não abdicarão num instante da liberdade de uma cidade com setecentos anos (V, 112).

O cerco e a memória dos gregos

Os atenienses cercaram a cidade com uma muralha. Os mélios tomaram duas vezes uma parte dela (V, 115, V, 116), e Tucídides não refere qualquer ajuda de Esparta. Depois da chegada de reforços comandados por Filócrates e de uma traição no interior, renderam-se no inverno de 416/5 a.C. Os atenienses mataram todos os homens adultos que capturaram, escravizaram mulheres e crianças e mais tarde enviaram 500 colonos (V, 116). Tucídides não acrescenta qualquer comentário, e a frase seguinte passa ao plano ateniense de conquistar a Sicília (VI, 1).

Os gregos não esqueceram. Em 405 a.C., depois da derrota de Egospótamos, os atenienses temiam sofrer o que tinham feito aos mélios (Xenofonte, Helénicas II, 2, 3), e Lisandro devolveu a ilha a todos os mélios que conseguiu reunir (II, 2, 9), pelo que alguns tinham sobrevivido. Isócrates teve de defender Atenas dessa acusação (Panegírico 100). Plutarco (Alcibíades 16) e o discurso Contra Alcibíades ([Andócides] 4, 22) culpam Alcibíades de ter apoiado a decisão; Tucídides não o menciona. As Aves de Aristófanes (186) têm a expressão λιμῷ Μηλίῳ, «por fome mélia», em geral entendida como alusão ao cerco, embora alguns estudiosos questionem a ligação.

Aconteceu assim, e de quem é a opinião?

Tucídides diz que os seus discursos conservam o sentido geral do que foi dito (I, 22). Viveu vinte anos no exílio depois de Anfípolis (V, 26, 5) e não nos diz como soube de uma reunião à porta fechada. Dionísio de Halicarnasso (Sobre Tucídides 37–41) achava inconcebível que atenienses tivessem falado assim, e George Grote também viu no diálogo uma composição. Brian Bosworth (1993) defende que algo semelhante a um diálogo aconteceu, que a sua essência foi transmitida pelo lado ateniense e que Tucídides lhe deu forma. Para ele, o texto trata menos da moral do império do que da escolha de um pequeno Estado.

As relações internacionais citam muitas vezes V, 89 como frase fundadora do realismo, também a propósito da invasão russa da Ucrânia. Neville Morley (2026) fala de um «gigantesco salto interpretativo» ao supor que Tucídides aprova a tese ateniense, pois o diálogo tem dois lados e deixa o juízo ao leitor. A própria ideia foi defendida também noutras formas: na República de Platão (338c), Trasímaco define o justo como τὸ τοῦ κρείττονος συμφέρον, o que convém ao mais forte. É uma tese diferente de V, 89, e num exame convém mantê-las separadas.

Datas importantes

  1. 426 BCNícias ataca Melos com sessenta navios; a ilha não adere a Atenas.
  2. 425/4 BCUma avaliação ateniense do tributo inclui Melos com 15 talentos.
  3. 416 BCA força ateniense desembarca; os embaixadores encontram os magistrados mélios.
  4. 416/5 BCMelos rende-se: os homens são mortos, mulheres e crianças escravizadas.
  5. 405 BCLisandro devolve a ilha aos mélios que consegue reunir.
  6. 1820A estátua hoje no Louvre como Vénus de Milo é encontrada em Melos.

Oito palavras, antes e agora

Grego antigoGrego atualSignificado
justiça, direito; lei
força; vigência legal
poder, força militar
interesse, vantagem
esperança
escravatura (δουλειά: trabalho)
segurança; hoje também seguro
a ilha de Melos (Milos)
B2

Ler em grego (B2)

Quer aprender grego?A ilha continua a chamar-se Μήλος, e as palavras do debate de 416 a.C., δίκαιο, ισχύς, συμφέρον, ασφάλεια, são hoje palavras correntes das notícias, do direito e dos seguros na Grécia.Começar o grego