Duas formas de uma só língua
O termo é διγλωσσία, diglossia: segundo o dicionário de Triantafyllidis, o uso por um povo de duas formas da sua língua nacional para funções diferentes. Nenhuma delas era o grego antigo. O dicionário chama à καθαρεύουσα uma mistura artificial de elementos arcaicos e neogregos, usada como língua oficial do Estado, e nota que procurava afastar-se tanto do grego antigo como do moderno. Define a δημοτική como o grego moderno comum, formado a partir da fala e cultivado na literatura. Uma carta de um leitor citada no Portal da Língua Grega mostra a distância num par de frases, ambas com o sentido de «Atenas expandiu-se muito»: Αι Αθήναι επεκτάθησαν κατά μεγάλον ποσοστόν e Η Αθήνα επεκτάθηκε κατά μεγάλο ποσοστό.
Os dois nomes têm raízes antigas e história moderna. Platão usa καθαρεύω para «ser puro» (Fédon 67a), e o léxico Liddell–Scott–Jones cita Dionísio de Halicarnasso para a pureza da expressão (Lísias 2). O dicionário vê ainda em καθαρεύουσα a influência do francês idiome épuré ou do alemão Reinsprache. δημοτική chegou através do francês démotique, que remonta à escrita egípcia a que Heródoto chama δημοτικά, «do povo» (2.36).
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De Korais a Psycharis
O debate ganhou forma no Iluminismo grego. Adamantios Korais (1748–1833) defendeu uma via intermédia: nem «tiranos» do povo nem «escravos» da sua vulgaridade, em palavras citadas pelo historiador K. Th. Dimaras, que resume a sua prática como um demótico limpo com moderação. Outros queriam mais: em 1853, Panagiotis Soutsos apelava ao regresso à própria língua antiga. Entretanto, a katharevousa tornou-se a língua escrita do novo Estado grego.
O movimento demoticista costuma datar-se de 1888, quando Yannis Psycharis publicou Το ταξίδι μου («A minha viagem»), escrito em demótico e habitualmente chamado o manifesto do movimento. Rena Stavridi-Patrikiou, cujos estudos constam do Portal, sublinha que ele manteve o laço com a Antiguidade: para Psycharis, o demótico era o verdadeiro filho da língua antiga. Nota também que ambas as formas reivindicavam o símbolo da continuidade e da unidade da nação. Isto ajuda a explicar como uma questão de gramática pôde despertar sentimentos tão fortes dos dois lados.
1901 e 1903: a questão chega à rua
Em setembro de 1901, o jornal ateniense Akropolis começou a publicar o Evangelho de Mateus numa tradução para demótico de Alexandros Pallis. Outra tradução, encomendada pela rainha Olga, tinha saído em fevereiro. Os estudantes manifestaram-se em defesa da katharevousa, alguns opositores viam um perigo nacional no eslavismo e o Santo Sínodo condenou as traduções para grego moderno. A 8 de novembro (calendário juliano), manifestantes e soldados confrontaram-se em Atenas. A maioria dos relatos indica oito mortos; um indica onze. O metropolita de Atenas Procópio e o primeiro-ministro Theotokis demitiram-se. Estes acontecimentos são conhecidos como Ευαγγελικά.
Os Ορεστειακά seguiram-se em novembro de 1903. O Teatro Real levou à cena a Oresteia de Ésquilo numa tradução de Georgios Sotiriadis, numa língua a meio caminho entre as duas formas. Protestaram os estudantes do professor Georgios Mistriotis, para quem o drama antigo só devia ser representado no original. Os relatos divergem quanto ao balanço: um morto e dezenas de feridos, ou dois mortos e sete feridos.
A Constituição de 1911 tratou depois dos dois assuntos. O artigo 107 fixou como língua oficial aquela em que são redigidas a Constituição e as leis e proibiu «qualquer tentativa de a corromper». Outra disposição proibiu verter a Escritura para outra forma de língua sem a aprovação também da Igreja de Constantinopla.
Da sala de aula à lei de 1976
Os demoticistas voltaram-se para as escolas. Uma escola de raparigas em Volos, dirigida por Alexandros Delmouzos, ensinou em demótico a partir de 1908 e fechou em 1911 perante a hostilidade local. A Sociedade para a Educação foi fundada em 1910 e, em 1917, o governo liberal levou o demótico aos primeiros anos do ensino primário, com Delmouzos, Dimitris Glinos e Manolis Triantafyllidis a trabalhar no ministério. A política mudou depois com os governos. A gramática do demótico de Triantafyllidis saiu em 1941. Segundo um relato, o governo Papandreou de 1964 deu às duas formas igual estatuto. O artigo 6 da Constituição de 1968, a do regime militar, ligou a língua do Estado e da escola à língua das leis, impondo assim a katharevousa sem a nomear.
Após a queda do regime em 1974, o Parlamento aprovou a Lei 309 em abril de 1976, sob o governo Karamanlis (as fontes indicam o dia 3 ou 30), com Georgios Rallis como ministro da Educação. O seu artigo 2 exige o «grego moderno» nas escolas a partir de 1976–77 e define-o como baseado no demótico. Não nomeia uma língua do Estado, pelo que um estudo no Portal diz que o demótico se tornou oficial indiretamente, através da língua de ensino. Uma lei escolar de 1985 diz simplesmente η δημοτική e, em 1986, o texto da Constituição foi transposto para demótico.
Datas importantes
- 1888Psycharis publica Το ταξίδι μου, escrito em demótico.
- 1901Os Ευαγγελικά: confrontos mortais em Atenas após uma tradução do Evangelho para demótico.
- 1903Os Ορεστειακά: protestos e mortos por causa da língua de uma encenação da Oresteia.
- 1911Artigo 107 da Constituição: a língua oficial é a das leis.
- 1917O governo liberal leva o demótico aos primeiros anos do ensino primário.
- 1941Sai a gramática do demótico de Triantafyllidis.
- 1968O artigo 6 da Constituição do regime militar impõe a katharevousa sem a nomear.
- 1976Lei 309: o grego moderno baseado no demótico torna-se a língua da escola.
Oito palavras, antes e agora
| Grego antigo | Grego atual | Significado |
|---|---|---|
| forma purista do grego | ||
| grego baseado na fala | ||
| língua (idioma e órgão) | ||
| água (substituiu ὕδωρ) | ||
| pão (substituiu ἄρτος) | ||
| constituição | ||
| tradução (antes: paráfrase) | ||
| gramática |
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