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Guerras e viragens

O século de Péricles: a idade de ouro de Atenas

Em meados do século V a.C., Atenas era rica, poderosa e cheia de construtores, artistas e pensadores. O seu principal cidadão era Péricles, eleito estratego vezes sem conta. Esta página explica como ele dirigiu a cidade, de onde veio o dinheiro para o Pártenon, quem eram os seus famosos amigos e como essa época terminou com guerra e peste.

Quem foi Péricles?

Péricles era um ateniense de família nobre. O pai, Xantipo, foi general nas Guerras Médicas, e a mãe, Agariste, pertencia à família de Clístenes, o homem que tinha fundado a democracia ateniense. Péricles não era rei nem tirano. Era um simples cidadão que falava muito bem e sabia convencer a assembleia.

O seu cargo oficial era o de estratego, στρατηγός, isto é, general. Todos os anos os atenienses elegiam dez estrategos, que comandavam o exército e a frota. Quase todos os outros magistrados de Atenas eram sorteados, mas os estrategos eram eleitos, porque a cidade precisava de chefes competentes. Péricles foi eleito vezes sem conta: Plutarco escreve que, depois do ostracismo do seu rival Tucídides (não o historiador), Péricles foi estratego quinze anos seguidos.

Os historiadores chamam às décadas da sua liderança, até 429 a.C., o século de Péricles ou a «idade de ouro» de Atenas. São nomes modernos: os atenienses não os usavam.

Salário, cidadania e poder

Péricles abriu a democracia aos cidadãos mais pobres. Segundo a Constituição dos Atenienses (27), foi o primeiro a pagar um salário, um μισθός, aos juízes, para que um camponês ou um artesão pudesse passar um dia no tribunal sem perder o seu rendimento. O seu rival Címon era riquíssimo e ganhava amigos com presentes; Péricles respondeu pagando aos cidadãos com dinheiro público. Os críticos diziam que assim os tribunais se enchiam de gente que só queria o pagamento.

Em 451/0 a.C., Péricles propôs também uma lei: um cidadão tinha de ter pai ateniense e mãe ateniense (Constituição dos Atenienses 26.3). A cidadania tornou-se mais valiosa e mais difícil de obter.

Quanto poder tinha um só homem? Tucídides, que viveu esses anos, escreveu que Atenas era «de nome uma democracia, mas de facto o governo do primeiro cidadão» (2.65.9). Mesmo assim, Péricles tinha de ganhar cada votação na assembleia, e em 430 a.C. os atenienses zangados chegaram a multá-lo. As mulheres, os estrangeiros e os escravos não tinham nenhum direito político.

O dinheiro dos aliados e o Pártenon

Depois das Guerras Médicas, muitas cidades gregas uniram-se a Atenas numa aliança, uma συμμαχία, a que chamamos Liga de Delos. Cada membro enviava navios ou pagava um tributo anual, o φόρος. O tesouro foi guardado primeiro na ilha de Delos, mas em 454/3 a.C. foi transferido para Atenas. A partir daí, um sexagésimo do tributo era oferecido à deusa Atena, e as listas desses pagamentos foram gravadas numa enorme estela de mármore na Acrópole, que ainda existe.

Com essa riqueza, Atenas reconstruiu os templos que os persas tinham queimado. O Pártenon, o Παρθενών, foi construído entre 447 e 432 a.C. pelos arquitetos Ictino e Calícrates. O escultor Fídias supervisionou toda a obra e fez a grande estátua de ouro e marfim, o ἄγαλμα, de Atena no interior. Os Propileus, a entrada da Acrópole, foram concluídos em cinco anos por Mnésicles.

Plutarco (Péricles 12) conta que os adversários de Péricles diziam que Atenas se enfeitava com o dinheiro dos aliados. Péricles respondia que os aliados pagavam pela sua proteção e que as obras davam salário a milhares de canteiros, carpinteiros, marinheiros e carregadores.

Amigos, inimigos e o fim de uma época

Péricles vivia rodeado de pessoas notáveis: Fídias, o filósofo Anaxágoras, que ensinava novas teorias sobre o Sol e o céu, e Aspásia, uma mulher brilhante de Mileto que era sua companheira. Plutarco (Péricles 31–32) conta que os seus inimigos o atacaram através deles: Fídias foi acusado de roubar ouro da estátua de Atena e depois preso, Aspásia foi julgada por impiedade e Anaxágoras teve de deixar Atenas. O próprio Plutarco admite que «a verdade não é clara», e muitos historiadores duvidam de algumas destas histórias, que vêm em parte dos poetas cómicos.

Em 431 a.C. começou a Guerra do Peloponeso contra Esparta. O plano de Péricles era trazer a gente do campo para dentro das muralhas e combater no mar. No primeiro inverno, pronunciou o famoso discurso fúnebre, o ἐπιτάφιος, pelos mortos em combate (Tucídides 2.35–46). Mas em 430 a.C. rebentou uma terrível peste na Atenas superlotada. Péricles foi multado e depois eleito de novo estratego. Morreu em 429 a.C., dois anos e seis meses depois do início da guerra (Tucídides 2.65.6). Atenas perdeu a guerra em 404 a.C.

Datas importantes

  1. 454/3 BCO tesouro da Liga de Delos é transferido de Delos para Atenas.
  2. 451/0 BCLei de Péricles: os cidadãos têm de ter pai e mãe atenienses.
  3. 447–432 BCConstrução do Pártenon na Acrópole.
  4. c. 443 BCComeçam os quinze anos seguidos de Péricles como estratego.
  5. 431 BCComeça a Guerra do Peloponeso contra Esparta.
  6. 430 BCPeste em Atenas; Péricles é multado e depois reeleito.
  7. 429 BCMorte de Péricles.

Oito palavras, antes e agora

Grego antigoGrego atualSignificado
general, estratego
salário, ordenado
o Pártenon
aliança
tributo (hoje: imposto)
tesouro (hoje: caixa)
estátua
discurso fúnebre (também o Epitáfio da Sexta-feira Santa)
B1

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