A vida
Kavvadias nasceu a 11 de janeiro de 1910 numa pequena cidade perto de Harbin, na Manchúria, onde o pai, natural de Cefalónia, tinha um negócio que abastecia o exército russo. A família regressou à Grécia em 1914, viveu em Argostoli, em Cefalónia, e fixou-se no Pireu em 1921. O rapaz cresceu no grande porto, entre navios e marinheiros, e começou a publicar poemas em revistas em 1928 sob o pseudónimo de Petros Valhalas. Queria estudar Medicina, mas a doença e a morte do pai obrigaram-no a trabalhar, primeiro num escritório de navegação e depois, a partir de 1929, no mar como marinheiro de convés.
Em 1939 obteve o diploma de radiotelegrafista, e esse foi o seu ofício para o resto da vida: o ασυρματιστής, sozinho na cabina de rádio, a bater mensagens em cargueiros e paquetes entre o Pireu, o mar Vermelho, o oceano Índico, as Américas e o Extremo Oriente. Combateu na frente albanesa em 1940–41, passou a ocupação em Atenas, onde aderiu à Resistência, e voltou ao mar em 1944. A sua última viagem terminou no final de 1974.
Nunca casou e, entre viagens, vivia em Atenas com a família da irmã. Baixo, calvo e brando, era conhecido dos amigos como «Marabu», por causa do primeiro livro, ou «ο Κόλιας». Morreu de repente de um AVC em Atenas a 10 de fevereiro de 1975, poucas semanas antes de sair a sua terceira coletânea.
A obra

Kavvadias publicou em vida apenas três livros de poesia, e cada um é curto. Μαραμπού (Marabu, 1933), cujo nome vem de uma feia cegonha africana, é uma galeria de marinheiros, fogueiros, portos e tatuagens exóticas, em quadras rimadas de ritmo forte e ondulante: um fogueiro de Djibuti que morre do seu vício, uma faca comprada em Argel, o Kuro Siwo, a corrente quente do Japão. Πούσι (Nevoeiro, 1947) é mais sombrio e denso, marcado pela guerra e pelos anos em mares perigosos: o poema «Θεσσαλονίκη», escrito durante um quarto noturno, recorda um amor perdido em terra; «Federico García Lorca» chora o poeta espanhol assassinado. Τραβέρσο (Traverso, 1975) reúne os últimos poemas. Em todos, o mar não é férias mas trabalho, prisão e destino, e o marinheiro sabe que nunca mais se sentirá em casa em terra.
O seu único romance, Η βάρδια (O Quarto de Vigia, 1954), acompanha uma noite na ponte de um cargueiro enferrujado no mar da China, onde os homens fazem vigia e falam, em calão de marinheiros, de mulheres, doenças, morte e dos portos que deixaram para trás; é hoje considerado um dos melhores romances gregos do século. Deixou também um punhado de prosas curtas. A sua língua mistura termos náuticos e estrangeiros, topónimos de cinco continentes e a fala simples da tripulação, o que torna os seus poemas invulgarmente físicos: sente-se o cheiro do óleo das máquinas e do nevoeiro. Os célebres versos de «Mal du départ», sobre o amante ideal e indigno das viagens distantes, resumem toda a sua vida.
O legado na Grécia de hoje
O caminho para Kavvadias passa pelas canções. O álbum de Thanos Mikroutsikos Ο Σταυρός του Νότου (O Cruzeiro do Sul, 1979), cantado por Giannis Koutras e outros, transformou «Θεσσαλονίκη», «Kuro Siwo», «Ένας νέγρος θερμαστής από το Τζιμπουτί» e «Mal du départ» em canções tocadas em todos os encontros gregos onde alguém tenha uma guitarra; um segundo álbum, Γραμμές των οριζόντων (Linhas dos Horizontes), seguiu-se em 1991. Os seus poemas estão nas antologias escolares, «Θεσσαλονίκη» é uma das canções mais conhecidas sobre a cidade, e Η βάρδια foi traduzido para muitas línguas. Cefalónia e o Pireu reclamam-no ambos como seu poeta, e a marinha mercante, cujos radiotelegrafistas tornou imortais, conta-o como um dos seus.
Sabia que…?
- Nasceu na Manchúria, numa cidade perto de Harbin, onde o pai, de Cefalónia, fornecia mercadorias ao exército russo.
- De 1939 a 1974 trabalhou como radiotelegrafista de bordo; a poesia escrevia-se na cabina de rádio, entre mensagens.
- A sua terceira e última coletânea, Τραβέρσο, saiu em 1975, semanas depois da sua morte.
- O álbum O Cruzeiro do Sul (1979), com os seus poemas musicados, é um dos discos mais vendidos da história da música grega.
Obras principais
| Título grego | Título | Ano |
|---|---|---|
| Μαραμπού | Marabu (poemas) | 1933 |
| Πούσι | Nevoeiro (poemas) | 1947 |
| Η βάρδια | O Quarto de Vigia (romance) | 1954 |
| Τραβέρσο | Traverso (poemas) | 1975 |
| Ο Σταυρός του Νότου (δίσκος, Θάνος Μικρούτσικος) | O Cruzeiro do Sul (álbum de Thanos Mikroutsikos) | 1979 |
Uma frase para reter
Θα μείνω πάντα ιδανικός κι ανάξιος εραστής / των μακρυσμένων ταξιδιών και των γαλάζιων πόντων
Tha meino panta idanikos ki anaxios erastis / ton makrysmenon taxidion kai ton galazion ponton
Serei sempre o amante ideal e indigno / das viagens longínquas e dos mares azuis














