
Um tesouro de um naufrágio
Anticítera é uma pequena ilha rochosa entre Citera e Creta. Em 1900, mergulhadores de esponjas da ilha de Symi encontraram no fundo do mar, perto da sua costa, um antigo ναυάγιον, um naufrágio. Em 1900 e 1901, o Serviço Arqueológico grego e a Marinha grega retiraram a carga. Foi o começo da arqueologia subaquática na Grécia.
O navio era um grande navio de carga. Afundou entre cerca de 75 e 50 a.C., provavelmente a caminho de Itália. Levava estátuas de bronze e de mármore, como o famoso «Efebo de Anticítera» em bronze, e também vidro, joias, camas e ânforas.
Entre estes tesouros havia alguns blocos sem forma de bronze corroído e madeira. No início, ninguém lhes deu muita atenção. Depois, a partir de 1902, investigadores do Museu Arqueológico Nacional de Atenas, como o arqueólogo Valerios Stais, repararam em algo estranho: pequenas rodas com dentes, como o interior de um relógio. Era o mecanismo de Anticítera. Uma segunda fase de mergulhos, em 1976, teve a ajuda do Calypso, o navio do explorador francês Jacques-Yves Cousteau, e a investigação no naufrágio continua até hoje.
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O que significa esta palavra?
Um modelo do céu numa caixa de madeira
O mecanismo era uma caixa de madeira com placas de bronze à frente e atrás. Lá dentro, muitas engrenagens de bronze, τροχοί dentados (rodas), faziam-se girar umas às outras. Quando o utilizador rodava o mecanismo à mão, os ponteiros moviam-se nos mostradores.
Hoje está partido em 82 fragmentos, e só sobrevive cerca de um terço, incluindo 30 engrenagens. Os cientistas usaram exames de raios X para ver o interior. Pensam que mostrava:
- à frente, as posições do Sol, da σελήνη (a Lua) e dos cinco πλανῆται (os planetas) conhecidos na Antiguidade, à volta de um círculo do zodíaco;
- atrás, um mostrador ἡμερολόγιον (calendário) baseado num ciclo de 19 anos da Lua e do Sol;
- um mostrador para o ἔκλειψις (o eclipse), baseado num ciclo de 223 meses lunares, que avisava quando podiam acontecer eclipses do Sol e da Lua;
- um pequeno mostrador com o ciclo de quatro anos dos grandes jogos, com os nomes ΟΛΥΜΠΙΑ, ΠΥΘΙΑ, ΙΣΘΜΙΑ e ΝΕΜΕΑ.
As placas estavam cobertas por milhares de letras gregas minúsculas. Parte deste texto era uma espécie de manual de instruções, que explicava o que o mostrador da frente indicava.
O «primeiro computador»? O que era e o que não era
Em 1959, o historiador da ciência Derek de Solla Price escreveu um artigo chamado «Um computador grego antigo», e os jornais ainda chamam ao mecanismo «o primeiro computador do mundo». É preciso cuidado. Não era um computador como um portátil: não tinha eletricidade, nem memória, nem um programa que se pudesse mudar.
Os cientistas descrevem-no com mais rigor como uma calculadora astronómica analógica, um ὄργανον (um instrumento) de engrenagens. Cada resposta estava construída no número de dentes das suas rodas. Por exemplo, se uma roda dá uma volta enquanto outra dá muitas, as duas podem imitar as velocidades diferentes do Sol e da Lua no céu. Ao rodá-lo, o utilizador podia avançar ou recuar até qualquer data e ler onde deviam estar o Sol, a Lua e os planetas.
Mesmo assim, era uma μηχανή (uma máquina) espantosa. É o aparelho mais antigo que se conhece a transformar teorias científicas sobre o céu em engrenagens em movimento. Mas nem tudo nos modelos modernos é certo. A frente, com os planetas, está muito danificada, e reconstruções como a publicada por uma equipa da University College London em 2021 preenchem as lacunas com propostas cuidadosas, mas discutidas. Alguns investigadores chegaram a perguntar se todos os fragmentos pertencem a um único aparelho.
Quem o fez, e quando?
Ninguém sabe quem construiu o mecanismo, e a sua data é discutida. O Museu Arqueológico Nacional data-o, com as suas inscrições, de cerca de 150–100 a.C., pela forma das letras. Um estudo do mostrador dos eclipses, em 2014, defendeu que o seu ciclo começa em 205 a.C.; os autores sublinharam que o próprio aparelho pode ter sido feito mais tarde.
Dois lugares são muitas vezes ligados à sua ciência. O escritor romano Cícero fala de uma esfera feita por Arquimedes de Siracusa, que mostrava o Sol, a Lua e os planetas; por isso, alguns estudiosos pensam numa oficina que continuava a sua tradição. O museu aponta também para a ilha de Rodes, onde ensinava o filósofo Posidónio. O mostrador dos jogos também dá pistas: ao lado dos quatro grandes jogos, refere os Naa de Dodona e provavelmente os Halieia, jogos do Sol celebrados em Rodes. São teorias razoáveis, não provas.
Hoje os fragmentos estão guardados no Museu Arqueológico Nacional de Atenas, ao lado das estátuas do mesmo naufrágio. São demasiado frágeis para viajar, por isso a nova investigação faz-se com exames de imagem e com modelos que funcionam, em bronze, madeira ou gráficos de computador.
Datas importantes
- 2nd c. BCO mecanismo é construído (o museu data-o de cerca de 150–100 a.C.)
- c. 70 BCUm navio de carga que o transporta afunda-se ao largo de Anticítera
- 1900/1901Mergulhadores de esponjas de Symi encontram o naufrágio; a carga é retirada
- 1902Investigadores em Atenas reparam nas rodas dentadas
- 1959Derek de Solla Price publica «Um computador grego antigo»
- 1976Novos mergulhos no naufrágio com o Calypso de Cousteau
- 2005Tomografias de raios X revelam engrenagens escondidas e milhares de letras
- 2021Uma equipa da UCL publica um novo modelo do mostrador dos planetas
Oito palavras, antes e agora
| Grego antigo | Grego atual | Significado |
|---|---|---|
| máquina; motor | ||
| instrumento; ferramenta | ||
| roda (também roda dentada) | ||
| eclipse | ||
| lua (palavra corrente: φεγγάρι) | ||
| planeta («errante») | ||
| naufrágio, destroços | ||
| calendário; diário |